Rio-Máquina
Paula Braga - 2008
Rio-Máquina é uma impressionante instalação mecânica que aciona questões filosóficas relativas ao tempo e à matéria. A obra é feita com uma malha de aço inoxidável derramada pelo chão, que flui por cilindros de aço. O fluxo dessa máquina-rio está congelado, permanece fixo. No entanto, à medida em que nos deslocamos, temos a sensação óptica de que a malha está em movimento. Estará mesmo?
A interação entre o trabalho e o espectador confere a Rio-Máquina um estatuto de “quase-corpo”, estado que alguns artistas brasileiros, no final dos anos 1950, se esforçaram para conferir aos materiais. Lygia Clark certa vez disse sobre sua obra mais famosa, Bichos: “Quando alguém me pergunta quantos movimentos um Bicho pode fazer, eu respondo: eu não sei, você não sabe, mas ele sabe [...] |Ele é um organismo vivo, um trabalho essencialmente ativo.”
Artur Lescher reativa a fé neoconcreta na expressividade dos materiais. Ele não submete os materiais a esforços alheios a suas naturezas. Prefere jogar com suas dimensões -- incluindo a dimensão do tempo -- para expandir nosso conhecimento sobre eles: o papel torna-se fluido, a pedra transfigura-se em lagoa, e uma malha de metal imóvel flui em movimento gracioso. Suas obras sugerem que, sob condições apropriadas, a matéria assume novas qualidades insuspeitadas. As condições especiais que liberarão o movimento do aço ou a umidade do vidro são atingidas pela forma que Lescher confere aos materiais: um corpo pronto para interagir com outros corpos. A interação altera o tempo, permitindo a animação da matéria de maneiras não usuais. Lescher, de fato, está bastante próximo da ideia de animação: ele costuma associar uma personalidade a cada tipo de material, tentando compreender a vontade do ferro, o humor da madeira, ou a forma como cobre interage com outros personagens colocados nas paisagens que constrói. A pedra talvez tenha uma vontade, diz ele a partir de Nietzsche, mas em um tempo, em uma duração que dificilmente perceberemos.
Rio-Máquina é parte das investigações do artista sobre fluidez. Em Cachoeira, de 2006, placas de alumínio medram da parede, e escorrem, como em Rio-Máquina, sugerindo um ciclo, possivelmente indo do objeto ao corpo. Como a água do rio que evapora para se tornar chuva e então novamente rio, Rio-Máquina suspende o aço, elevando-o, por um processo fenomenológico, ao estatuto de matéria animada. Um vislumbre. E então o ciclo se fecha, a obra é novamente aço para nossa percepção. E retornamos ao embaraço da dúvida.