Sobre as esculturas de Shirley Paes Leme
Tadeu Chiarelli - 2007
Por mais grandiosos e imponentes que possam ser alguns dos trabalhos de Shirley Paes Leme, eles sempre serão dominados e tornados íntimos do observador pela memória que sua técnica construtiva exala.
Por mais “estranhas” que possam parecer num primeiro olhar, as esculturas de Shirley Paes Leme guardam essa familiaridade, essa potencialidade utilitária estrutural que, ao se revelar, problematiza a inclusão fácil de sua obra numa tradição que ignora influxos outros que não apenas aqueles de extração erudita.
Shirley Paes Leme trabalha como se fosse a primeira artista (não que antes dela tivesse existido “o” primeiro artista), o primeiro ser hmano a criar formas no espaço para povoar o mundo, numa interação entre o ser e a matéria. Seus trabalhos são estranhos e familiares porque carregam dentro de si tanto o inusitado da forma absolutamente original quanto o entrave dos limites de uma técnica arcaica imemorial.
É nesssa intersecção (e não nessa “síntese” entre arte erudita e artesanato, é nesse lugar “contraditório” - onde vários outros artistas brasileiros se situam - que a artista ajuda a ampliar os limites da arte contemporânea, conferindo a ela um caráter não unicamente erudito e autoritário, mas igualmente popular, conciliatório, capaz de fazer conviver posturas que seriam excludentes em outras esferas.